Damáris Lopes - Gosto de sonhar... Definitivamente, isto me faz amar a vida, a poesia. Impossível viver a mãe que sou, a esposa, a trabalhadora, a mulher de muitos espelhos, sem poesia a me embalar. Se às vezes a perco, por pura indisciplina, ela cumpre perfeito resgate, e eu, mesmo depois de certa calmaria, como diz o poeta Naldo Velho, renasço, plena em poesia.
Arquivo

Dito pelo não dito
fotografo tudo
o óbvio, o esquisito.
Dia versus noite versus dia.
Sol que anda,
se esconde da lua branca,
acena, some de cena
e, não descansa.

Eu não mudo, tenho raiz na Terra,
outro planeta me desintegra.
Então, em terra
enterro minhas lembranças,
marco que sou
da manha da criança,
do adolescente ingrato,
do adulto embasbacado
que oculto.

Vire minha página,
serei talvez, breve futuro,
best-seller da velhice,
consagrado premio andarilho.

Na gaveta, verbo andar desvencilho,
giro chave à fechadura.
Enfático, o presente assegura
sou elo conectivo
e por up-grade da vida
sou também um arquivo.

Damáris Lopes



Das Inutilidades

Inúteis são pesadelos,
comidas sem tempero,
brigas no trânsito
adornos no cabelo.

Inúteis são lentes coloridas,
olhos que não têm vida.

Inúteis são lágrimas de amor perdido,
minutos calados, sufocados gritos.

Inúteis são lábios pintados,
sem os teus aos meus adicionados.

Inúteis são coisas estragadas,
boêmios sem madrugadas.

Inúteis são palavrinhas, palavrões,
dores de cotovelo nas canções.

Inúteis são manhãs de ressacas.
Diamantes em mãos fracas.

Inúteis são porta-retratos,
desfilam ressabiados
dentro deles, nós dois.
Mas dois, do lado de fora,
distantes, magoados, agora,
como tais porta-retratos,
inutilidades são também.

Então, ali, enquadrados,
inúteis somos os quatro e,
todo o amor que se tem.

Damáris Lopes



Sinaleiro da Comunidade

Na bondade que carrega
a turma da minha rua,
existe vermelho sangue
amarelo de amargura.

Na calçada desta rua
sob o velho pé de Ipê,
morte se esconde da lua
testemunha do porquê.

Meio fio, frio córrego,
vira brejo esquecido.
Mal sem base prolifera,
foi o tal do amor, banido.

Nesta fossa à céu aberto,
odor é dado menor.
A janela sem tramela,
licença dada ao bandido.

As portas desta rua
na verdade são cortinas,
tão fracas se vêem nuas,
overdose, adrenalina.

Na maldade que carrega
o outro lado da rua,
existe vermelho sangue,
sinal verde para tortura.

Damáris Lopes




Teu Beijo

Como faz engordar-me o doce
Ao saborear os lábios teus
Onde o beijo, como fosse,
Doçura que adoça aos meus.
No encontro que aflora
Sinto entregar-me a um bem
Meus lábios iniciam a hora
Que ultrapassas quando os tens.
Sem indagar o vento,
Sob teu beijo, paralisado,
Sem ponteiro corre o tempo
Teu amor está conjugado.
Dá-me pois, sublime encontro
Sutil quando o permito,
Ou em forças como confronto,
Tua boca não resisto.
Soam rimas neste beijo
Mesmo em olhos vendados
Invade-nos tenro desejo
Desse beijo de amor molhado.
Suplicas então, minha boca,
Ainda em ato roubado,
Rendo-me à resistência pouca
Ao teu beijo, meu doce amado.

Damáris Lopes



Sem Título

Vinga, meu poema calado,
patético, transtornado,
leviano, por mim.
Cresça, meu poema descontente,
feito poeta emergente,
felino pelo querer.

Morda, meu poema comilão
mastiga minha razão,
azede como o vinho.

Tempere-me agora,
sem problema.
Trabalhe, meu poema... Psiu! Quietinho!

Faça de mim, açoitado,
adjetivo ornamentado
por substantivo composto,
para que na estrofe seguinte,
não seja eu, pobre pedinte,
mas poema sem desgosto.

Damáris Lopes



Infinita Vontade

Arrancas de mim, meu querer
antes que pura dor extravase
Se faz claro, dor é essa de doer,
num peito chorador de saudade.

Me abraças com teu corpo nu
permitindo-me nele esquecida,
prender-me ao teu amor sem tabu
e, sem pudor, aclamar-te minha vida.

Sejas pois, quente e sólida coberta,
a aquietar a turva alma desperta.
Concretizes meus sonhos em verdade,

Tomas-me como mulher pedinte,
e que neste meu corpo tilinte,
por ti, essa louca e infinita vontade.

Damáris Lopes



Quando outra te tocar

Não te cales do amor ao segredo
Sem o gemido que trará a ti, o bem
Contrastes permitas sem falso medo
Sob as plumas do travesseiro que convém.

Talvez tilinte o colchão de uma cama
Ou te impulsione a força, pelo amor da hora
Faze então, do teu corpo, gozo que proclama:
Esse amor não enterra o de outrora.

Ao herdar as mãos de mulher outra
No solto corpo como amante quente,
Descubras carinhos, a lembrança consente.
Damáris Lopes - Perdido pois, em sonhos de quem por ti foi louca
E, mesmo distante, reconheces sem fim
Ao toque de outra sempre sintas teu resgate a mim.

Damáris Lopes



Volta

Volto,
mão do contra fluxo,
zigue-zague, ando.

Destra, mais que nunca,
sem farol pra penumbra,
volto à vida pouca.
Largo vaga tua boca
ao beijo de outro alguém.

Não dirijo muito bem.
Volto sem luxo,
contra mim, contra fluxo,
como quem já pagou multa.

Volta cabisbaixa.
Desleixada, a próxima curva
é última.
Imagem congelada,
que os olhos não vêem mais.
Volto à vida
condutora da despedida,
e, o pára-brisa embaçado
enxerga tudo nublado,
mas consegue ainda dizer,
perdida minha moradia,
jurada por tantos dias,
eterna, em você.

Damáris Lopes